08 setembro 2007

A cidade neo-barroca (I)


Nos últimos meses tenho vindo a analisar neste blogue o que designo por "A Cidade Radiosa de Odivelas", ou seja, o espaço urbano que se desenvolve desde a Codivel até à Quinta do Mendes, fortemente influenciado pelos princípios do Urbanismo Moderno. Fi-lo não apenas pelo interesse do tema em si, mas sobretudo com o propósito pedagógico de mostrar aos leitores como toda essa área é, apesar da sua qualidade algo irregular e de uma certa falta de sentido de conjunto (por culpa da justaposição de vários loteamentos pouco articulados entre si), urbanisticamente mais interessante do que a generalidade das urbanizações que se têm desenvolvido nos últimos 10-15 anos no Concelho de Odivelas.
Não estando o tema da "Cidade Radiosa" esgotado (ainda vou escrever, pelo menos, sobre as "unidades de habitação" Hotelcar e Horizonte e sobre o Chapim), é chegada a altura de começar a partilhar com os prezados leitores alguns argumentos que já tive oportunidade de apresentar e discutir no âmbito da First International Conference of Young Urban Researchers (FICYUrb), que se realizou nos dias 11 e 12 de Junho de 2007 no ISCTE.
Basicamente o que se está a passar em Odivelas, e um pouco por todo o lado, mesmo em lugares do Portugal urbano remoto, é o regresso à cidade dita tradicional, das avenidas coroadas por pontos de interesse focal - tipicamente rotundas - e, por vezes mas nem sempre (como veremos com exemplos concretos), organizada em quarteirões. É uma cidade muito diferente daquela que tenho vindo a descrever em "A cidade radiosa", onde os espaços verdes são normalmente decorativos e já não estruturantes, onde os equipamentos colectivos deixaram de ser uma prioridade, onde o trânsito deixou de circular em vias hierarquizadas para se acumular em filas intermináveis e pondo em risco, muitas vezes, a segurança de crianças e adultos, dada a promiscuidade dos vários tipos de tráfego (local, de atravessamento, de peões).
As causas do regresso a esse tipo de cidade é uma longa história, que nos remete necessariamente para a crise do Urbanismo Moderno, que se agudiza na década de 70, não apenas em Portugal mas um pouco por todo o mundo. Tal fenómeno levou, a partir da década de 80, muitos urbanistas - sobretudo arquitectos - a enveredarem por um certo regresso ao passado, revidendo, por vezes com algum exagero, formas típicas da cidade barroca e/ou da cidade oitecentista haussmanniana (Lamas, José, 1992, Morfologia Urbana e Desenho da Cidade, Lisboa, FCG/JNICT).
A cidade barroca, encenada, das longas avenidas coroadas por pontos de interesse monumental, desenvolve-se a partir do Séc. XVII na sequência da invenção da perspectiva e do coche – o carro a cavalo que proporcionava velocidades “alucinantes” – bem como de uma época de excesso nos costumes e nas artes (Munford, Lewis, 1998, A cidade na história. Suas origens, transformações e perspectivas, São Paulo, Martins Fontes). Desta forma, o regresso a este tipo de morfologia urbana na transição do Séc. XX para o Séc. XXI não pode deixar de estar associado à democratização do automóvel (o coche dos tempos modernos) e aos hábitos que se criaram em termos da sua utilização frequente, bem como à hiper-valorização da imagem na sociedade de consumo e nos estilos de vida pseudo-modernos - tudo factores que favorecem uma certa encenação do espaço urbano.
É esse tipo de encenação que encontramos no Parque das Nações. Aliás, é difícil não associar a generalização das formas urbanas barrocas em Odivelas e em muitos lugares do nosso querido Portugal a uma certa vontade em replicar o desenho urbano dominante do Parque das Nações, que é eminentemente pós-moderno e barroco, apesar de incorporar alguns elementos morfológicos caros ao Movimento Moderno (sobretudo na sua zona mais a norte).
Aliás, o caso de Odivelas, até pela proximidade ao Parque das Nações, constituiu um exemplo paradigmático dos efeitos nefastos que essa grande operação urbanística pode vir (e está já) a provocar nas cidades portuguesas (António Mega Ferreira já afirmou, em entrevista ao DN há umas semanas, que vai dizer o que pensa sobre o Parque das Nações para o ano, 10 anos passados sobre a EXPO 98; estou cheio de curiosidade...).
As Colinas do Cruzeiro são o caso mais emblemático do regresso ao barroco em Odivelas. Mas não são o único. Falarei a seguir do Jardim da Radial, Ramada (na foto), onde esse tipo de tendências revivalistas se manifestaram pela primeira vez de forma evidente no nosso concelho.

3 Comments:

At 2:03 da tarde, Blogger Maria Máxima Vaz said...

Temos aqui matéria abundante para reflectirmos sobre a nossa cidade.
Potenciar os aspectos positivos e minimizar os erros será o aconselhável,mas cada vez mais o cidadão tem de ser interventivo.
Admiro-me de não ver aqui comentários....

 
At 5:59 da tarde, Blogger Maria Máxima Vaz said...

Não quero admitir que em Odivelas não haja cidadãos que se interessem pelos assuntos da comunidade !
Começo a sentir-me extraterrestre.
Participar desinteressadamente, foi remetido definitivamente para o reino da "Utopia"?

 
At 2:55 da tarde, Blogger Maria Máxima Vaz said...

Vejam o programa "Depois do Adeus", domingo, 17 /02, às 23 horas. Apresenta questões sobre o nosso solo. Convém estarmos informados....

 

Enviar um comentário

<< Home